O peixe-lua reina absoluto como o maior e mais pesado peixe ósseo de que se tem notícia. Embora tubarões e raias possam ultrapassar o seu peso, é fundamental lembrar que eles pertencem à categoria dos peixes cartilaginosos. As fêmeas dessa espécie costumam ser consideravelmente maiores do que os machos. Além do tamanho impressionante, esse animal carrega o título de vertebrado mais fértil do planeta inteiro.

Até o momento, o maior exemplar de peixe-lua já documentado foi encontrado na costa de Portugal. A balança marcou incríveis 2,8 toneladas, o equivalente ao peso de mais de cinco bois gordos. Ele media assustadores 3,25 metros de comprimento por 3,6 metros de altura. Curiosamente, assim como os famosos baiacus, essa espécie carrega uma toxina que é venenosa para os seres humanos. Outro detalhe que intriga os cientistas é o fato de o peixe-lua ser, segundo os registros atuais, o único peixe de sangue quente conhecido no mundo.

Sua dieta é peculiar e focada principalmente em águas-vivas, de longe o seu alimento favorito. No entanto, o apetite do gigante também inclui pequenos peixes e quantidades massivas de zooplâncton e algas.

Anatomia bizarra e estações de limpeza

Basta olhar rapidamente para um peixe-lua para perceber que ele foge completamente do padrão. A ausência de uma cauda convencional chama a atenção, mas engana-se quem pensa que isso o atrapalha, pois ele é um nadador surpreendentemente ativo. Em vez de escamas, seu corpo é coberto por uma pele grossa e de textura extremamente áspera.

A boca, minúscula em relação ao corpo desproporcional, é incapaz de se fechar totalmente graças aos seus dentes, que são fundidos em uma estrutura que lembra muito um bico de pássaro. Preferindo as águas de oceanos temperados e tropicais, ele é uma figura carimbada no Atlântico, Índico e Pacífico.

Embora seja uma criatura que adora a imensidão do mar aberto, o peixe-lua tem um motivo muito prático para visitar frequentemente áreas rasas de corais e formações de algas. Ele sofre com infestações severas. Cerca de 40 espécies diferentes de parasitas costumam se alojar na sua pele, e é justamente nos recifes que ele encontra os pequenos peixes-limpadores dispostos a devorar esses intrusos, em uma verdadeira sessão de higiene marinha.

Das profundezas do mar para a calmaria dos rios

Seja observando as peculiaridades dos gigantes que habitam os oceanos ou lançando iscas em riachos estreitos, a relação humana com a vida aquática sempre rende histórias fascinantes. Outro dia mesmo, lendo “Fishing Stories”, obra de Nick Lyons, acabei mergulhando em memórias nostálgicas de tempos mais simples. Lyons relata que, durante sua adolescência vivendo no Brooklyn, ele e dois amigos passavam o dia de abertura da temporada de pesca de trutas explorando o East Branch do rio Croton, no condado de Putnam.

Esse braço do rio faz parte do imenso sistema de reservatórios de água New Croton, administrado pelo Departamento de Proteção Ambiental de Nova York (DEP). O trecho em questão flui do Reservatório East Branch para o Reservatório Diverting, antes de desaguar de vez no Reservatório Muscoot.

A rotina daqueles garotos era religiosa. Sempre na véspera do grande dia, eles catavam minhocas, preparavam as provisões e organizavam toda a tralha. Na madrugada da abertura, pegavam o trem das 5h45 da Grand Central Station direto para a cidade de Brewster. A história de Nick pintou um quadro de inícios de temporada frios e chuvosos. Eles ficavam encharcados até os ossos antes de precisar correr de volta para a estação e pegar o próximo trem para casa. Isso durou anos, até que as obrigações e as novas aventuras da vida adulta mudassem o rumo das coisas.

Os velhos tempos no East Branch

Esses relatos ecoam muito as minhas próprias experiências no mesmo East Branch, provavelmente na mesma época em que Nick pescava por lá, no final da década de 1950. A diferença é que nós fugíamos da confusão do dia de abertura. Preferíamos iniciar a temporada nos pequenos riachos repletos de trutas das fontes que também alimentavam a rede de reservatórios de Nova York.

Nosso roteiro começava testando as minhocas no Amawalk Outlet. Apenas quando a temperatura da água subia um pouco é que nos aventurávamos em águas mais largas. Não que o East Branch fosse um rio gigantesco, mas definitivamente era mais imponente do que os riachos que estávamos acostumados.

Tínhamos dois pontos de pesca sagrados. Um deles ficava sob uma velha ponte de estrada de terra, a uns cem metros da represa. Lá havia um poço longo que passava por debaixo da ponte e virava à esquerda, seguindo o curso do rio. A água corria entre muros de pedra construídos pelo homem, que desciam inclinados até a margem. Nós apelidamos o lugar de “A Banheira”, justamente por causa do seu formato. Esse poço sempre fervilhava de trutas marrons. Provavelmente o governo soltava os peixes ali por conta da facilidade de acesso. Eu lançava minha linha na Banheira o tempo todo, afinal, dava para ver os peixes nadando, mas não me lembro de ter fisgado sequer um. Aquelas trutas sabiam perfeitamente que eu estava ali.

Pescarias proibidas e um gesto de mestre

Muitas vezes, nossa teimosia nos levava rio acima, saindo da Banheira até o ponto onde a ponte da Rota 22 cruzava a água. Era uma área restrita do DEP. O fluxo de água era excelente e nunca faltava peixe. Tiramos várias trutas marrons de respeito daquele trecho e, por pura sorte, nunca fomos pegos pela fiscalização.

Também explorávamos a parte de baixo da ponte. Foi em uma dessas descidas que tirei da água uma truta marrom de 35 centímetros, o meu recorde pessoal até aquele momento. Logo abaixo dali, na curva do rio, ficava o poço mais profundo e extenso de todo o East Branch. Acredito que o chamavam de Phoebe Hole, mas também desconfio que esse era o local que Nick batizou de Big Bend Pool nos seus textos. Apesar de ser um poço colossal, nunca tirei uma escama de lá. Fico imaginando se os peixes realmente gigantes não viviam escondidos no fundo, esperando o anoitecer para caçar.

Foi nessas mesmas margens que vivi um momento divisor de águas. Eu estava apenas engatinhando na pesca com mosca, fazendo movimentos desajeitados no ar com um equipamento pessimamente balanceado. De repente, um senhor mais velho, com uma aura muito gentil, parou ao meu lado. Ele abriu sua caixa de equipamentos sem dizer muita coisa e me entregou duas moscas secas belíssimas: uma Pink Lady e uma Brown Bi-Visible. Um ato de verdadeira generosidade que transformou para sempre a trajetória de um pescador iniciante.